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2007 - Kimi é campeão!


A temporada 2007 começou com uma pergunta crucial: como seria o primeiro ano da Fórmula 1 sem o heptacampeão mundial Michael Schumacher? Ela não havia sequer chegado a sua metade quando ninguém mais parecia dar sinais de sentir falta do alemão que anunciara sua aposentadoria das pistas em 2006. O troca-troca de pilotos nas principais equipes já estava certo desde meados da temporada anterior, mas ninguém podia imaginar o quanto isso iria eletrizar o campeonato.

Com Schumacher fora, Felipe Massa passou a ter como companheiro de equipe na Ferrari o finlandês Kimi Raikkonen. A McLaren, por sua vez, lançou sua nova dupla de pilotos, formada pelo estreante Lewis Hamilton e pelo bicampeão Fernando Alonso. E, desde a primeira corrida, o quarteto mostrou que iria dominar o pódio pelas 17 etapas do ano. Para a torcida brasileira, era a primeira vez em vários anos que ela poderia contar com a real chance de ver um piloto nacional levar o troféu de campeão.

Mas foi Kimi Raikkonen quem começou dando as regras. Na Austrália, fez a pole, a volta mais rápida e venceu a prova de abertura da temporada. Em Albert Park, o novato inglês da McLaren surpreendeu o mundo com sua chegada em terceiro. Até aí, tudo bem, outros estreantes já tinham ido bem em suas corridas de début. O que ninguém podia imaginar é que até a oitava etapa da temporada ele estaria presente em todos os pódios, passando a ganhar a alcunha de “fenômeno”. O sucesso de Hamilton incomodou, principalmente, o espanhol Fernando Alonso. O bicampeão tentou mostrar que quem mandava prender e mandava soltar na equipe comandada por Ron Dennis era ele e parecia ter conseguido seu intento ao vencer a segunda corrida do ano, na Malásia.

No terceiro Grande Prêmio, no Bahrein, os resultados finais não deixavam dúvidas quanto à disputa acirrada pelo título deste ano. Três pilotos (Alonso, Raikkonen e Hamilton) estavam empatados com 22 pontos em primeiro lugar. Massa aparecia em 4º, com cinco a menos. Junte-se a isso o fato de que cada Grande Prêmio havia sido vencido por um piloto diferente e pronto: o intervalo de quase um mês até o GP da Espanha foi marcado por grande expectativa pelos aficcionados da categoria. E o público não sabia, mas por essa época, nos bastidores, além do clima começar a se deteriorar na McLaren por causa do destaque cada vez maior dado a Lewis Hamilton, um certo caso de espionagem passava a tomar forma entre um funcionário da Ferrari e outro da equipe inglesa.

E foi no circuito de Barcelona que o inesperado aconteceu: o novato-pupilo de Ron Dennis assumiu a liderança da tabela de classificação do Mundial de Pilotos. Felipe Massa, que vinha de duas vitórias consecutivas, pulara para terceira posição depois de um começo de temporada ruim, ficando um ponto atrás de Fernando Alonso e a três do líder. O queixo de muita gente deve ter ensaiado uma queda descomunal ali, mas foi quando a Fórmula 1 chegou à América do Norte que Hamilton assombrou de vez. No Canadá e nos Estados Unidos, venceu com direito a duas poles também consecutivas. Os triunfos lhe renderam 10 pontos de vantagem em relação a Fernando Alonso. Estava declarada a guerra entre os pilotos da McLaren!

Em Montreal, no entanto, o que mais impressionou foi o terrível acidente sofrido pelo polonês Robert Kubica. Na 27ª volta da corrida, o carro do piloto da BMW chocou-se violentamente e ficou destroçado. Kubica chegou a ficar desacordado por alguns minutos e foi levado hospital. No dia seguinte, saiu dirigindo normalmente da unidade hospitalar. Dos médicos recebeu a proibição de correr na etapa seguinte, em Indianápolis.

Depois das duas vitórias seguidas de Hamilton, Kimi deu o troco chegando em primeiro lugar na França e na Inglaterra, jogando por terra as esperanças dos ingleses de verem um triunfo do “menino prodígio”. Em Nurbürgring, onde foi realizado o tumultuado GP da Europa, Hamilton não chegou na zona de pontuação pela primeira vez neste ano. Com a vitória de Alonso, a vantagem entre os pilotos caiu para apenas dois pontos. Pouco antes de subir ao pódio para comemorar sua vitória, o espanhol se envolveu em um bate boca com Felipe Massa, revoltado com uma manobra do bicampeão.

Nos bastidores, o que mais se comentava, no entanto, era o julgamento da McLaren. Acusada de espionagem, a escuderia foi inocentada na audiência da FIA realizada em 26 de julho. A equipe de Ron Dennis se livrou, momentaneamente, de um problema nos tribunais, porém, na etapa seguinte do Mundial, as coisas entre o poderoso chefão e Alonso e entre o bicampeão e Hamilton se agravaram. Desta vez, para todo mundo ver e ouvir.

No treino de classificação para o GP da Hungria, Alonso ficou parado ocupando a posição de pit stop por mais tempo do que alguém poderia imaginar e acabou sendo punido porque os comissários consideraram que ele prejudicou Hamilton. O novato, por sua vez, teria desobedecido a uma ordem do patrão para que Alonso o ultrapassasse. Resultado: não deu mais para evitar a reprise do filme de 88 e a McLaren passou, de fato, a ter dois pilotos rivais na luta pelo título.

Enquanto os dois duelavam e marcavam seus pontos, Felipe Massa esboçou uma reação ao vencer na Turquia. No entanto, viu suas chances se acabarem de vez em Monza. Depois de disputar a posição com Hamilton na largada, o brasileiro levou a pior e abandonou a prova três voltas depois. Lewis não teve prejuízos com o toque e ainda fez uma linda ultrapassagem em Raikkonen – que dava sinais de estar também deixando a disputa pelo campeonato para os pilotos da McLaren. Com a dupla Alonso-Hamilton fazendo dobradinha na Itália e, principalmente, pressionado pela segunda audiência sobre o caso de espionagem - cujas novas provas contra sua equipe foram encontradas – Ron Dennis chorou.

Era apenas o começo de uma semana histórica na Fórmula 1. No dia 13 de setembro, a McLaren viu-se no banco dos réus novamente e, desta vez, em uma situação mais grave. Muitas horas de tensão e especulação depois, em que chegaram até a anunciar a exclusão do time dos campeonatos de 2007 e de 2008, a FIA confirmou a punição para a escuderia: perda de todos os pontos no Mundial de Construtores deste ano, sem direito a registrar novos nas etapas restantes, e inspeção prévia do modelo 2008 da equipe. No dia seguinte, quando a FIA divulgou a transcrição da audiência na qual puniu a McLaren, ninguém entendeu o porquê da isenção total para os pilotos. O documento mostrou claramente que, por meio dos e-mails trocados entre os espanhóis Fernando Alonso e Pedro de la Rosa, não apenas a equipe detinha as informações secretas da Ferrari quanto a usou em determinadas ocasiões. Como promessa é dívida, os pilotos não sofreram penalização alguma, uma vez que lhes foi garantida a delação premiada.

Sem a McLaren, a Ferrari conquistou seu 15º título de campeã na Bélgica, ocorrido três dias após o julgamento. E comemorou bastante, apesar do asterisco na tabela. Para completar a festa em vermelho, Kimi Raikkonen venceu a prova e reativou suas esperanças no campeonato de pilotos. No Japão, encostou ainda mais nos líderes depois da saída de Alonso. A Fórmula 1 voltava a Fuji e, com previsão até de um tufão, deu a Lewis Hamilton a chance de sonhar em ser campeão na China, também graças à quebra de seu companheiro de equipe.

Mas em Xangai, o novato cometeu um erro de novato, o seu maior em 2007 (além de, óbvio, ter desafiado o bicampeão do mundo). Não se importou com a vantagem que tinha nem com o desgaste dos pneus e abandonou o GP, preso na caixa de brita localizada na entrada do pit lane. Alonso e Raikkonen vibraram e adiaram a decisão do Mundial, pelo terceiro ano consecutivo, para a última etapa da temporada: o GP do Brasil.

Hamilton nem precisava vencer para se tornar não só o campeão mais jovem da história da Fórmula 1 como também o primeiro a vencer no ano de estréia. Já Raikkonen e Alonso torciam por uma combinação de resultados, tendo o finlandês menos chances matemáticas de obter a façanha. No treino de classificação, o inglês ainda levou vantagem por largar na frente dos principais concorrentes. No entanto, o nervosismo e a falta de experiência pesaram contra o estreante. Hamilton errou. Kimi, não. Alonso não mostrou ser páreo. Kimi, sim.

Depois de ultrapassar Felipe Massa após o segundo pit stop, Kimi Raikkonen guiou seguro até o fim e tornou-se o campeão da temporada 2007. O que quase ninguém podia imaginar acabava de acontecer: o finlandês tirou o troféu das mãos dos pilotos da equipe que fora punida por apropriação de informações secretas de outra. Quis o destino que a resposta fosse dada nas pistas e a competência de Raikkonen nas duas últimas corridas acabou fazendo com que a justiça fosse feita.

O título de Kimi Raikkonen, no entanto, só foi proclamado no dia 16 de novembro. Nesta data, foi realizada uma audiência na Corte de Apelações da FIA na qual a McLaren reivindicava reanálise do caso de combustíveis com temperaturas fora do regulamento, caso percebido nos carros da BMW. Se a petição da escuderia inglesa fosse deferida, os pilotos seriam excluídos da zona de pontuação e, com isso, Lewis Hamilton, tornaria-se o vencedor da temporada. No ano do tapetão, a FIA achou melhor não se envolver mais em polêmica e validou o troféu de campeão para o finlandês da Ferrari.

 

Kimi Räikkönen

Classificação Final

 

 

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