Filmes sobre ou envolvendo o automobilismo não são novidades – nós até já falamos sobre isso aqui, mas havia um que se não era tão aguardado já fora bastante especulado. Seu nome é simples, diretor e por si só (quase) autoexplicativo: Senna, o filme. Entretanto, ao contrário do que se divulgou ao longo destes 16 anos, não houve atores fazendo o papel do tricampeão ou de qualquer outra pessoa importante na vida e na carreira dele.
Criado no formato de documentário, Senna, o filme tem cerca de 90 minutos de duração e começa e termina com imagens da época pré-Fórmula 1 dele. Talvez por isso mesmo tenha criado a expectativa na cabeça de algumas pessoas de que o que elas encontrariam diante de si fosse um revival total dos grandes momentos da carreira de Ayrton nas pistas do mundo. E não é.
Fiquei com a impressão de que o diretor Asif Kapadia e o autor Manish Pandey se concentraram em três temas maiores para fazer o documentário sobre Senna: a religiosidade do piloto, o duelo contra Prost e sua notória obsessiva busca para atingir suas metas. Para abordar cada um deles, depoimentos foram incluídos: da irmão, Viviane Senna; de Ron Dennis, do Dr. Sid Watkins, de comentaristas da TV inglesa e de Reginaldo Leme. Mas somente nos comentários de Prost você via quem estava falando. Em imagens de 88 a 94, Prost aparece na tela quase tantas vezes quanto o próprio Senna.
Do famoso episódio no GP de Mônaco de 1984, no qual dividiram o pódio pela primeira vez, até aquela última prova da temporada de 1993 na Austrália, quando ambos fizeram a derradeira dobradinha, a coexistência recheada de pegas, declarações e momentos inesquecíveis entre eles sem dúvida alguma é a parte que mais agrada do mais ardoroso fã do Senna ao simples apaixonado por corridas de Fórmula 1.
Aliás, fazer aflorar um velho e conhecido sentimento no espectador, dando a ele a possibilidade de reviver um passado longínquo há pelo menos 17 anos, é um dos méritos do documentário. E, de repente, é como se a poltrona da sala de cinema fosse um assento em uma arquibancada qualquer em Interlagos, Suzuka ou naquele sofá da sua casa de onde você viu algumas daquelas corridas mostradas ali na tela grande.
Nos vemos torcendo novamente. Nos vemos nos divertindo novamente. Como se já não soubéssemos qual seria o final daquelas provas.
Particularmente, sempre que revejo as cenas do GP Brasil de 1991 e do GP do Japão de 1988 eu simplesmente não consigo evitar a emoção. Na telona, com carros e pistas ocupando todo o espaço e o sistema de som ampliando a potência dos motores, as vitórias de Senna naqueles dias me pareceram ainda maiores e mais magníficas.
Pena não haver, então, mais cenas das corridas memoráveis como em Donington Park 1993 dirão muitos. E é verdade! Mas acredito que o foco do filme não era a carreira de Senna como piloto e talvez a proposta da produção acabasse se desvirtuando e talvez caísse na repetição de compactos de Grandes Prêmios que já vimos em DVDs como Os Anos do Tri, lançado pela Editora Abril há alguns anos.
Além disso, a mim me parecia meio óbvio apelar para muitas corridas pelo fato de ele ter sido um piloto. Recentemente, por exemplo, vi na ESPN um documentário sobre o ex-jogador de basquete Vlade Divac. Lá pouco se mostrou de partidas importantes de sua carreira (e ele foi campeão mundial, europeu e vice-olímpico porque não conseguiu bater um tal de Dream Team). Grande parte da biografia de Divac abordou o lado humano, especialmente o que aconteceu com ele a partir de um gesto impensado que teve ao conquistar o título mundial dias antes de estouro da guerra na Iugoslávia.
Assim como no mini filme sobre Divac, em Senna não se deixou de falar sobre o homem, o profissional e a modalidade esportiva.
Nas duas sessões que acompanhei (no primeiro e no último dia de exibição em Recife), vi um público composto mais de fãs do tricampeão. Ao final da primeira, a platéia demorou a sair da sala. As cenas do (sempre direito maldito) acidente em Ímola e do funeral nos prendia às cadeiras como que para nos recompor. E houve aquele silêncio pesado entre os presentes que me deixou a impressão de que, passe o tempo que for, aquele final de semana trágico ainda seguirá comovendo as pessoas como se tivesse acabado de acontecer.
E olha que não houve Tema da Vitória ou Canção da América, músicas usadas ao extremo naquele maio de 1994 – o que, aliás, cá para nós, já pode ser considerado um ponto positivo também, não é?
Talvez a inversão dos acontecimentos no documentário tivesse sido melhor. Dessa forma, quem sabe?, terminar com as maravilhosas imagens da câmera on board do carro de Senna nas ruas estreitas de Mônaco evitasse que aquela senhora de seus quase 70 anos não soluçasse tanto e deixasse a sessão aos prantos antes mesmo dos créditos finais aparecerem enquanto sua filha a chamava insistentemente.
O fato é que Senna, o filme se transformou para mim numa experiência muito gostosa ao me possibilitar rever algumas imagens da minha época favorita da Fórmula 1.
Ri e chorei de saudade daqueles tempos.
E como uma boa F1 Girl saí de lá me perguntando: por que não lançam no cinema filmes sobre cada temporada da categoria? Se existem filmes oficiais sobre as Copas do Mundo, por que não de Fórmula 1?






















